segunda-feira, 24 de julho de 2017

The Dead Daisies: Resgatando o Prazer de Ouvir um Álbum ao Vivo



Formado em 2012, na Austrália, pelo guitarrista David Lowy (Red Phenix, Mink) e pelo vocalista Jon Stevens (Noiseworks, INXS), que acabou dando lugar a John Coraby (Mötley Crüe) em 2015, a banda veio sofrendo várias alterações de line-up, mas David sempre teve ao seu lado músicos de talento e reconhecimento, nessa ideia de fazer do seu Dead Daisies um grupo de sucesso, com seu Hard Rock carregado de energia e com influências dos anos 70.
 
O line-up atual, além de Lowy e Corabi, conta com o baixista Marco Mendonza (Thin Lizzy, Whitesnake), o guitar-hero Doug Aldrich (Dio, Whitesnake) e o batera Brian Tichy (Whitesnake, Foreigner, Ozzy), uma turma dessas dá pra chamar de supergrupo! E passo a passo o Dead Daisies começa a ganhar mais notoriedade, principalmente a partir dessa nova formação e do excelente terceiro álbum, "Make Some Noise" e a adição de Doug Aldrich, transformando as apresentações ao vivo ainda mais explosivas, e o que vem sendo o grande trunfo do grupo.


Aproveitando o embalo desse momento de alta, inclusive as bem sucedidas tours como banda de apoio de Kiss e Whitesnake, o The Dead Daisies solta o ao vivo "Live & Louder", álbum que resgata aquele prazer de ouvirmos um disco ao vivo, pois capta toda a energia da banda, e, segundo eles, sem over-dubs ou outras mexidas de estúdio. Realmente, pode até ter uma ou outra mexida, mas que soa autentico soa, inclusive podemos notar pequenas falhas e imperfeições, nos trazendo o clima do show, bem orgânico mesmo e cheio de energia. Recentemente a banda passou por aqui pelo Brasil e outros países da América do Sul, e a Shinigami Records soltou no mercado nacional este ao vivo e o mais recente álbum de estúdio, “Make Some Noise”.

"Live & Louder" traz 16 músicas gravadas durante a tour europeia ano passado, trazendo toda a energia e qualidade do Hard Rock do grupo. Falei da adição de Aldrich, mas Corabi também faz um trabalho espetacular, com sua voz rasgada, com aquele estilo bem clássico, meio bluesy, encaixando perfeito na sonoridade da banda.

Em faixas como a abertura explosiva com “Long Way to Go” e a talhada para apresentações ao vivo, “Make Some Noise”, faixa título do mais recente disco de estúdio, que tem aquela levada indicada para a banda chamar a galera pra cantar junto (assim como em "Join Together"), e é o que eles fazem; o jeitão 70’s se mistura a pegada mais atual e melódica, como em  “Song and a Prayer” e seu refrão irresistível.


Temos a parede sonora e os Wha-Whas de “We all Fall Down”a dobradinha com as baladas "Lock and Load", e seu refrão e melodias grudentas, onde Doug apresenta toda sua classe, e "Something I Said", que traz uma melodias meio Country e Blues; ou a cadenciada  “With you and I”,  ou ainda a veloz e enérgica “Mainline”, são pauladas atrás de pauladas, que não deixam você recuperar o fôlego.

Temos até a tradicional apresentação dos membros da banda, com cada um tendo seu momento, tocando trechos de clássicos como “Highway to Hell”,  “Voodoo Chile” e “Living After Midnight”, e a galera acompanhando! Uma festa!

Temos também as versões explosivas para “Fortunate Son”, do Creedence, onde Doug Aldrich debulha sua guitarra em um solo matador, "We're an American Band" (do Grand Funk, grande versão!) e “Helter Skelter”, o Heavy Metal dos Beatles (também “coverizado” por Mötley Crüe no "Shout at Devil"), numa versão ainda mais pesada (tem espaço até para uma citaçãozinha de Led).



Se você ainda não conhece o trabalho dos caras, está aí uma bela oportunidade de experimentar o Hard Rock enérgico do The Dead Daisies em estado bruto. E se você curte aqueles tradicionais álbuns ao vivo que eram obrigação lá nos anos 70 e 80, tenho certeza que também ficará satisfeito. Uma dose de Hard e Rock and Roll para levantar o ânimo de qualquer um!

Texto: Carlos Garcia
Fotos: Divulgação

Ficha Técnica:
Banda: The Dead Daisies
Álbum: "Live & Louder" (2017)
Estilo: Hard Rock, Classic Rock
Selo: AFM/Shinigami Records


Line-Up:
John Corabi: Vocais
David Lowy: Guitarras
Doug Aldrich: Guitarras
Marco Mendonza: Baixo
Brian Tychi: Bateria


Tracklist
1. Long Way To Go 4:47
2. Mexico 5:15
3. Make Some Noise 02:59
4. Song And A Prayer 3:39
5. Fortunate Son 4:01
6. We All Fall Down 3:43
7. Lock ' N' Load 5:12
8. Something I Said 5:19
9. Last Time I Saw The Sun 5:13
10. Join Together 6:30
11. With You And I 5:06
12. Band Intros 5:05
13. Mainline 4:54
14. Helter Skelter 6:57
15. American Band 3:27
16. Midnight Moses 5:31

Canais Oficiais:


   

   

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Nervochaos: Imprimindo o Caos!


Em duas décadas regadas a peso e brutalidade, o Nervochaos desembuça a sua lógica como uma das principais instituições do Death Metal brasileiro, algo notório pelo que produziu nos discos lançados nos últimos anos, além de turnês feitas pelos principais continentes. Mas, quem costuma acompanhar a banda, sabe que as mudanças de formação é algo já quase corriqueiro, sendo Edu Lane (bateria), único membro a se manter desde o começo. Com um novo e encorpado line-up, “Nyctophilia”, 7º disco da carreira, chega pra mostrar essa nova metamorfose, estabelecendo coisas novas e mantendo as principais fontes.

Condicionado pelos aspectos clássicos do Death Metal, transposto desde o “Battalions Of Hate” (2010), “Nyctophilia” integra unidades viçosas, reforçando uma sonância sombria e arrastada, buscando experimentar dosagens de Thrash Metal, Doom e Cross-over, e mantendo sempre a pegada brusca que todos já conhecem somado por passagens soturnas. Os novos integrantes: Lauro Nightrealm (vocais e guitarra, ex-Queiron), Cherry (guitarras, Hellsakura e ex-Okotô) e Thiago Anduscias (baixo, ex-Creptum e Amazarak), contribuíram com suas experiências.


O disco também é marcado por ser gravado, pela primeira vez, fora do país, pois partiram pra Itália pra produzir o álbum junto ao produtor Alex Azzali, encarregado também de fazer a mixagem e masterização. E a sonoridade impõem camadas agressivas, tencionada por uma forma clara e sedenta. A capa, criada pelo artista Alcides Burn (Acheron, Headhunter D.C., Iconoclasm), funde em exatos detalhes o que se passa no disco, desenvolvida por um ar bastante sinistro.

Trilhando nuances ora arrastadas, ora obscuras, o Nervochaos não perde a linha com seu Death Metal cheio de energia e garra, entregando um disco com músicas que já fixam em nossa mente, contando com a ajuda e das ideias dos novos membros, que trouxeram novos elementos e influências para a banda, não esquecendo das importantes participações de Sebastian L. (Into Darkness) e Leandro P. (R.N.S), e também do Bolverk (Ragnarok) em “Vampiric Cannibal Goddess”.

Chegando com os 2 pés, “Moloch Rise” atribui elementos tradicionais do grupo, cingida por riffs violentos e variantes; “Ritualistic” acende pontos mais cadenciados, regida pelo peso e brutalidade rítmica. A díspar “Ad Majorem Satanae Gloriam” segue numa linha mais ríspida e azeda, marcada por um refrão pronunciante e sinistro; “Season of theWitch” é digerida pela violência, degradando linhas de Black Metal e vocais alternados, juntando por contornos guturais e rasgados em concordância. Em “Waters of Chaos” e “The Midinight Hunter” possui a marca tradicional da banda, dominada pelo caos infernal e bravio. 


“Rise of the 13 Cemeteries” é permeada por tempos mais rápidos e cativantes, remetendo à fisionomia clássica do Death Metal dos anos 80 e 90; “Vampiric Cannibal Goddess” roteia caminhos lineares, trazendo rapidez e levadas de Thrash Metal; “Stained With Blood”, novamente, é toada de passagens diferentes, com riscas não tão intensas, mas sim arrastadas e sórdidas; “Lord Of Death” passa um ar mais direto, ostentada por um peso abismal nas guitarras; “Dead End” apresenta ligações agastadas e complexas, colocando técnica nas partes rítmicas, principalmente no baixo, encerrando com a eversiva e demolidora “Live Like Suicide”.

Mais uma vez o Nervochaos nos impõem respeito, levando a nos curvar literalmente a este, que é uma das principais lendas do Death Metal nacional.

Texto: Gabriel Arruda
Edição/Revisão: Carlos Garcia
Fotos: Divulgação

Ficha Técnica
Banda: Nervochaos
Ano: 2017
País: Brasil
Tipo: Death Metal
Gravadora: Cogumelo Records
Assessoria de Imprensa: Metal Media

Formação
Lauro Nightrealm (Vocal/Guitarra)
Cherry (Guitarra)
Thiago Anduscias (Baixo)
Edu Lane (Bateria)

Track-List
1. Moloch Rise
2. Ritualistic
3. Ad Majorem Satanae Gloriam
4. Season of the Witch
5. Waters of Chaos
6. The Midnight Hunter
7. Ritesof 13 Cemeteries
8. Vampiric Cannibal Goddess
9. Stained With Blood
10. Lord Death
11. Dead End
12. World Aborted
13. Live Like Suicide

Contatos

   


   

terça-feira, 18 de julho de 2017

Avatarium: Soando Clássico e Novo ao Mesmo Tempo


 

Essa banda me empolga mais a cada álbum! Nascido da genialidade de Leif Edling (Candlemass), o Avatarium chega ao seu terceiro full-lenght, e a cada novo trabalho, evoluem e podemos dizer que moldou uma personalidade bem própria e marcante. 

Lá em 2012, quando começou a fazer a s primeiras demos, chegando a fazer o convite a Mikael Arkerfeldt (Opeth) para se juntar ao novo projeto, felizmente, devido as agendas, Mikael não pode aceitar. Digo felizmente, porque talvez o Avatarium corresse o risco de se tornar uma banda chata e autoindulgente como a banda titular de Akerfeldt. 

Quando a coisa é para dar certo, o universo conspira, e Marcus Jidell (Soen, Evergrey, Royal Hunt) entrou na jogada, e trouxe sua esposa Jennie-Ann Smith para os vocais. A mistura dos riffs Doom e influências 70's com os elogiáveis dotes vocais de Jennie-Ann fundiram-se em uma alquimia fantástica, trazendo uma sonoridade clássica, mas ao mesmo tempo soando nova!


"Hurricane And Halos", traz uma banda ainda mais livre e criativa, e daquelas que começa a ser difícil rotular. As influências Doom Metal ainda estão presentes em riffs e em momentos de mais peso, como na abertura "Into the Fire/Into the Storm", onde os riffs de guitarra se fundem ao Hammond, trazendo a mente os clássicos Sabbath e Purple.

"The Starless Sleep" vem com timbres 70's e nuances psicodélicas, com absoluto destaque para as linhas vocais e a levada cativante; "Road to Jerusalem" tem um clima meio oriental, com elementos do progressivo setentista, bluesy e folk. Percussões e a guitarra nessa linha bem bluesy dão um clima viajante, destacando mais uma vez as linhas vocais profundas e carregadas de feeling de Jennie-Ann. 

Você vai percebendo que a banda transita por momentos que beiram a genialidade, nessa sua fórmula de criar músicas, que mesmo em peças mais longas e com viagens instrumentais, é de fácil assimilação, justamente pela facilidade em tecer melodias marcantes e empolgantes, e claro, toda a paixão dos vocais de Jennie-Ann. "Medusa Child", com suas intervenções Doom e Progressivas, é banhada com doses de psicodelia, e nos mergulha em uma trip de surpresas, pois estamos envolvidos em riffs Doom e teclados bem 70's, quando de repente entra um coral com vozes de crianças, e depois nos pegamos flutuando em um mar formado pelos teclados, que vai crescendo, até vir a padecer lentamente.


Depois do mergulho em "Medusa Child", somos despertados pela levada dinâmica de "The Sky at the Bottom of the Sea", com o Hammond em destaque ao lado dos riffs de guitarra, tem algo de Uriah Heep, inclusive em algumas linhas melódicas no vocal, que remetem a clássica "Easy Living". Puro 70's soando atual. Grande canção, onde tenho que fazer abrir parênteses para elogiar os riffs e solos de Marcus Jidell, sempre com aquela aura 70's, sem exageros e com muito feeling.

"When Breath Turns to Air" (que Marcus compôs em homenagem ao pai) é uma balada climática e profunda, e como não poderia deixar de ser, com a aura 70's a flor da pele. As guitarras viajantes de Marcus brilham e deixam o espaço para a voz e os teclados também ficarem sob os holofotes nesta melancólica e profunda balada; "A Kiss From the End of the World" começa com um violão folk pra em seguida dar espaço ao peso das guitarras e da cozinha, devidamente acompanhadas pelo Hammond. 


A banda cria climas únicos com suas nuances 70's, Doom Metal e  doses de psicodelia; A instrumental melancólica e viajante "Hurricane and Halos" fecha mais um grande trabalho dos suécos, e me deixou a certeza que é uma das minhas bandas preferidas da atualidade, e uma das melhores coisas que apareceram na cena nos últimos anos.

Avatarium é clássico, viajante, refinado, pesado e traz o frescor criativo e liberdade que a música de hoje precisa, com tantos soando iguais e sem alma. Não sei bem o que eles bebem lá na Suécia, mas poderiam dividir com o resto do mundo, porque é impressionante a quantidade e qualidade da música que vem de lá. E tenho que aplaudir a mão de Leif para compor, sendo que assina 6 das 8 músicas, e a performance irrepreensível de seus companheiros, e um dos grandes diferenciais da banda, Jennie-Ann (e o seu nome me lembra uma de minhas cantoras favoritas, Jenny Haan, do Babe Ruth).

Texto: Carlos Garcia
Fotos: Divulgação

Ficha Técnica:
Banda: Avatarium
Álbum: "Hurricane and Halos" 2017
Estilo: Heavy Metal/Hard Rock 70's/Doom Metal
País: Suécia 
Produção: Marcus Jidell
Selo: Nuclear Blast/Shinigami Records


Mais Avatarium:

 Line-up:
Jennie-Ann Smith: Vocais
Marcus Jidell: Guitarras
Leif Edling: Baixo
Lars Skold: Bateria
Rikard Nilsson: Teclados
Percussões: Michael Blair

Tracklist:
Into the Fire/Into the Storm
The Starless Sleep
Road to Jerusalem
Medusa Child
The Sky at the Bottom of the Sea
When Breath Turns to Air
A Kiss (From the End of the World)
Hurricanes and Halos

   


   

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Entrevista - Bendicta: Melódico, Moderno e Visceral!



Apesar do pouco tempo de formação (a banda nasceu em junho de 2015, em SP), o Bendicta já vem chamando atenção pela sua sonoridade pesada, melodiosa, visceral e moderna, mas sem relegar as influências mais tradicionais. Além disso, a banda aposta em letras em português e ainda tem o carisma e a voz marcante da vocalista Angel à frente, e demonstrando muita determinação e profissionalismo, o grupo vem crescendo, e recentemente lançou seu EP de estreia, "Recomeço", em evento bem especial no tradicional Manifesto em SP.

Conversamos com a simpática e carismática Angel, que nos contou mais a respeito da banda, suas opiniões sobre diversos assuntos do mundo da música, a participação no concurso "A Voz do Rock", e também sobre como iniciou sua carreira na música, que não foi exatamente no Rock ou Metal. Confira que o papo foi muito legal!


RtM: Olá Angel, gostaria de parabenizar a banda Bendicta pela excelente estreia com o EP “Recomeço”. 
Angel: Obrigada!  Foi uma enorme realização pra nós.

RtM: Primeiramente, vamos conversar um pouco sobre seu início de carreira e como você descobriu que queria ser cantora?
Angel: Costuma-se dizer que é a música que te escolhe e eu acredito muito nisso, está no meu DNA. Eu vim pra SP muito nova, tinha uns 9 anos, meu pai tinha uma dupla sertaneja e achou que aqui era mais fácil de acontecer. Infelizmente não deu certo pra ele, mas acabei seguindo os mesmos passos, embora num estilo totalmente diferente hoje em dia.
Eu tenho 3 irmãs, mas fui a única que ele tentou e notou que havia um talento escondido ali. Minha primeira experiência com o palco foi aos 5 anos, dublando “Lua de Cristal” da Xuxa com aquele microfone de rabinhos (Risos)! Pena que não tenho registro disso! 

"Costuma-se dizer que é a música que te escolhe e eu acredito muito nisso."
RtM: Legal! E sua primeira experiência cantando de verdade?
Angel: Meu primeiro palco cantando de verdade foi aos 11 anos, meu pai me inscreveu em um concurso, cantei “Seu Olhar” da Sula Miranda e nunca me esqueço disso, porque quase morri de tanta vergonha (sim, eu era extremamente tímida).  
No início foi bem difícil pra mim, porque embora eu gostasse de música, eu não tinha essa desenvoltura toda, e mesmo assim ele me colocava em várias “roubadas”, pra cantar em todas as festas da família com playbacks em fita cassete. Aos 14 anos fiz teatro na escola e entrei para o grupo de teatro da igreja católica que eu frequentava, isso me ajudou demais a encarar o palco e o público. Cantei em uma pizzaria algumas vezes com meu pai, mas percebi que sertanejo não era o meu forte.

Comecei a curtir o microfone de verdade na adolescência, quando fui fã do grupo teen Backstreet Boys, onde montei um grupo de meninas e comecei a compor minhas primeiras letras, e aprendi facilmente a fazer harmonização vocal ouvindo as apresentações deles “a cappella”.


RtM: E a primeira experiência com o Rock e outros projetos musicais antes da Bendicta ?
Angel: Aos 17 anos enquanto eu fazia parte de um grupo de street dance eu conheci meu primeiro namorado, que era tecladista de uma banda de rock, ensaiávamos no mesmo colégio, e em certa ocasião me convidou para ser backing vocal da banda dele “Dr. Lao” em 2002. A primeira música que aprendi a cantar no rock foi “Run to the Hills” do Iron Maiden, e daí por diante fui pegando gosto pela coisa. Tive essa certeza ao me apresentar pela primeira vez com a Dr. Lao, foi então que descobri a minha vocação para o Rock. Foi nessa minha primeira banda que conheci o Thigas (guitarra, vocal e principal compositor da Bendicta).

Tive diversas bandas e projetos, fiz muita coisa durante esses 15 anos. Tive uma banda autoral chamada “Ghost Dogs”, gravamos um disco na época, e também algumas bandas de festa como a “Louvre” e cover diversos estilos como “Rock to the Bone”, mas música nunca foi meu ganha pão, infelizmente, tudo o que eu faço é por pura paixão mesmo,  quem sabe um dia se torne a minha principal profissão, não custa nada sonhar!

Making off do clipe "Essência"
RtM: Fale um pouco sobre sua formação musical. Quais foram suas primeiras influências e quais são as atuais?
Angel: Eu me formei em Canto Popular pela EM&T em 2008, estudei com a professora lírica Eliete Murari. Fiz muitas apresentações na escola ao longo do curso, de vários estilos, o que contribuiu muito para a minha performance e expressão corporal. Mas o que realmente vale é a experiência de palco que tive com as tantas bandas das quais fiz parte.

Tenho várias influências musicais dentro e fora do Rock, acho isso super importante, principalmente para quem compõe, porque abre seu leque de possibilidades. Sou fã de artistas como Michael Jackson e atualmente Bruno Mars, e no Rock minha base vem do Hard Rock, vocalmente falando, esses são alguns dos vocais (antigos e novos) que me inspiram: David Coverdale, Bruce Dickinson, Steven Tyler, Robert Plant, Ronnie James Dio, Freddy Mercury, Sammy Hagar, David Lee Roth, Axl Rose, Bon Jovi, Layne Staley, Chester Bennington, Lzzy Hale, Jared Leto, David Draiman, Myles Kennedy, e muitos outros nessa linha.

RtM: Conte-nos um pouco sobre como a banda começou. 
Angel: A banda surgiu de um reencontro online entre o Thigas e eu, vou contar como foi do meu lado (risos).
Eu estava tocando bastante com a “Rock to the Bone”, mas sentia que faltava algo, e certa vez ao tocar no Evento “Rock In Midia” da 89 FM, o produtor Lampadinha estava lá, e ao final do evento veio falar comigo e perguntar se não tínhamos som autoral. Eu disse que não, mas que gostaria muito, só que achava que ali não iria rolar, até porque faltava tempo pra compor, fazer música é bem trabalhoso e exige muito dos integrantes, então ele me disse que eu estava perdendo tempo... fiquei atordoada com essa conversa, foi meio que um empurrão que eu precisava. Perguntei pra ele o que achava sobre letras, se o ideal seria em inglês ou português e ele me disse que pra tocar no Brasil, teria que ser em português. A semente estava plantada. 

RtM: Podemos dizer que a  partir daí começou a se desenhar a história do Bendicta?
Angel: Depois disso comecei a pensar muito, e decidi desistir da banda cover para montar uma focada somente em som autoral. Comecei a pesquisar sites de músicos, e já meio sem perspectiva, encontrei o Thigas online no Facebook e começamos a bater papo. Ele comentou que queria fazer umas gravações e gostaria que eu participasse, falou também que tinha algumas ideias dele gravadas. O Thigas sempre teve bastante envolvimento com som autoral, acho que isso foi providencial naquele momento. Falei do meu propósito e ele então me mandou uma das músicas que já tinha até vocal e letra, achei demais e desde o início acreditei que ele tinha um puta talento pra composição. Decidimos então fundar a banda e começamos a busca pelos demais integrantes, na sequência iniciamos os ensaios e a estruturação dos sons.

"Influências musicais dentro e fora do Rock...acho super importante, principalmente para quem compõe, porque abre seu leque de possibilidades..."
RtM: E como surgiu o nome “Bendicta”?
Angel: Escolher nome pra banda é sempre uma tarefa complicada, e “Bendicta” surgiu de um brainstorming entre todos, achamos que o nome era original, soava bem, curto e fácil de memorizar, além da sensação de trazer boas energias, e ainda não tinha nenhum registro na internet.

RtM: Hoje o cenário está bem mais “povoado” pelas bandas com integrantes femininos, mas nos fale como você vê a participação da mulherada, ainda tem alguma discriminação?  E o fato de ser mulher facilitou ou dificultou alguma coisa em termos de carreira musical?
Angel: Eu acho que ainda está muito longe do que se diz a respeito de igualdade, mas estamos caminhando. Eu acho que tudo na vida tem dois lados, assim como o fato de ser mulher nesse meio. O lado bom de ser mulher é que existe o lance do visual, o que afeta diretamente o público, ainda mais quando se tem uma personalidade bem marcante. O lado ruim é que, mesmo você tendo muito talento, muitas vezes é julgada por ter preferência ou maior destaque justamente por causa desse apelo visual, é bem complicado, nem todo mundo consegue lidar com isso, tanto a mulher quanto os demais envolvidos.

RtM: Quais foram os maiores desafios que você já encontrou durante sua carreira?
Angel: O maior desafio é nunca perder a fé, acreditar sempre que o seu dia vai chegar, trabalhar duro, persistir, mas acima de tudo, fazer com o coração, o resto é consequência. Ainda estou na fase de investimento, aliás, essa fase nunca acaba, você só renova. Aos poucos você vai colhendo os frutos e o reconhecimento disso.

RtM: Como você vê o atual momento da cena musical brasileira? 
Angel: A cultura brasileira nunca favoreceu o Rock, isso é fato, mas ele sempre existiu e todos os dias aparecem bandas novas, talvez não com a mesma visibilidade do que foi no passado ou comparado às bandas internacionais, mas isso está mesmo muito ligado à nossa cultura, que é criticar tudo o que é novo, principalmente vindo do público mais velho.
Eu acho que o mercado do Rock Nacional é carente e precisa de novas caras, precisamos deixar um legado para as próximas gerações, mas pra isso é preciso apoio das mídias em geral e principalmente do público consumidor de Rock.

"Acho que o mercado do Rock Nacional é carente e precisa de novas caras."
RtM: Sobre a sonoridade da Bendicta, gostaria que você falasse um pouco sobre as influências e como foi a construção dessa identidade da banda.
Angel: Cada membro da banda tem suas influências particulares, então tentamos unir aquilo que era comum a todos e mesclar com o que cada um tinha a oferecer do seu interior. Pensamos em fazer algo pesado, com afinação baixa, porém com elementos modernos/eletrônicos e vocais melódicos.

A construção da identidade de uma banda geralmente parte dos principais compositores, na Bendicta vem principalmente do Thigas na parte estrutural inicial das músicas, e depois o vocal acaba marcando com a melodia e o encaixe das letras. Os demais membros agregam na produção, e durante os ensaios testamos e fazemos as modificações necessárias para que a música soe bem e fique do nosso gosto.

RtM: E a decisão em apostar em letras em português, conforme nos falou antes, você levou em conta a opinião do Lampadinha?
Angel: Sim, a decisão de apostar em letras em português veio daquele papo com o produtor Lampadinha, pois queremos tocar no Brasil, e conseguimos achar uma forma de compor nas entrelinhas, deixando o tema como uma mensagem “subliminar”, fazendo com que o público entenda da sua maneira, proporcionando uma identificação de acordo com aquilo que está sentido naquele momento da sua vida.

RtM: E sobre o EP, gostaria que você nos falasse um pouquinho sobre a música “Essência”, para mim, o destaque desse ótimo primeiro lançamento oficial.
Angel: A música “Essência” foi a escolhida para ser o nosso primeiro single e também foi o nosso primeiro videoclipe gravado pela O2 Filmes e lançado pela Vevo.
Como disse o Thigas em uma outra entrevista, “Essência” expressa exatamente o que a música é: aquilo que vem de dentro, nossa identidade. É nosso single mais visceral numa combinação com elementos modernos. Essa é a nossa cara, mostra que o velho e o novo podem e devem caminhar juntos.

RtM: Com o crescimento das vendas de música online e serviços de streaming, você acha que isso ajuda ou atrapalha as bandas independentes? 
Angel: Eu sou uma pessoa totalmente adepta à tecnologia, na minha opinião tudo o que é online ajuda muito na divulgação, até mesmo porque hoje em dia ninguém vive de venda de música e sim de shows e merchan. Temos que evoluir junto, e aproveitar tudo o que a internet tem a oferecer, fazer disso um aliado para que cada vez mais pessoas de todos os lugares do mundo possam conhecer nosso trabalho.

Angel e Rane (TwoGuyz) no lançamento do EP do Bendicta
RtM: Como foi participar da competição “A Voz do Rock 2017”? O que você aprendeu com essa experiência?
Angel: Entrar nessa competição foi meio que uma superação pra mim e também foi super inusitado, porque fiquei sabendo através de um professor da academia, e é claro, deixei a inscrição para o último dia, faltando poucos minutos para o encerramento. A vida toda eu me inscrevi em todos os tipos de festivais que você possa imaginar, todos esses programas de TV, e NUNCA me chamaram pra nada (risos). Descobri que eu havia passado na seleção sem querer, quando estava jantando com uma amiga e comentei que havia me inscrito e fui ler a premiação pra ela, então vi meu nome lá no site e quase surtei!(risos)

RtM: Ha ha ha! Muito Bom! Acompanhamos que rendeu uma boa visibilidade para a banda.
Angel: A voz do Rock... Difícil até de explicar o que foi esse turbilhão de emoções, dois meses de muito aprendizado, as pessoas maravilhosas que conheci, e essa puta vitrine que foi pra mim. Desde o início o meu objetivo sempre foi entrar no festival pra divulgar a BENDICTA, e Deus é muito bom, porque eu consegui e foi muito rápido. Foram mais de 1.500 amigos/seguidores novos no facebook nesse período (hoje já dobrou esse número), muitos likes e views nos nossos clipes e foi daí que surgiu o convite para o lançamento do EP no Manifesto... Uma coisa surreal que eu nunca tinha vivenciado antes.

RtM: Conte-nos um pouco mais sobre sua parceria com o Rane (TwoGuyz ), vencedor da “Voz do Rock 2017”. 
Angel: O Rane é um querido, um ser humano incrível, desde a primeira vez que nos encontramos na semifinal já rolou uma amizade e uma admiração fantástica! Virou até motivo de piada da turma, porque antes mesmo da final já viramos uma “dupla” do Rock, uma parceria que só tende a crescer cada vez mais. 
Quando ele foi pra segunda fase da final, é claro que a minha torcida era pra ele, mereceu demais, ele tem a estrela, um puta talento, só falta o mundo conhecer.

"Torcemos para que um dia possamos viver desse sonho que move as nossas vidas."
RtM: Por que escolheram começar com o cover de “Watch over  You” do Alter Bridge?
Angel: A escolha da música “Watch over You” foi uma sugestão minha, adoro a banda Alter Bridge, e estou feliz da vida porque vou vê-los no Rock in Rio pela primeira vez! Uhuuu (risos)
Eu sugeri essa música porque ela tem o clima de dueto que eu queria, e achei que ficaria muito bacana pra dividir com ele e “tirar” um pouco essa imagem de “Anjo com voz de demônio” que o festival criou sobre mim, queria mostrar que também tenho o lado “anjo com voz de anjo” (risos) embora eu combine mais com o demônio (risos), além do que, para um clipe de início, o apelo seria bem legal, já que é uma balada.
Já temos outras músicas encaminhadas para gravação e lançamento, e também estou iniciando parcerias com outros participantes do festival, acho importante e também acaba agregando demais em nossos portfólios.

RtM: Quais serão os próximos passos da Bendicta?
Angel: Estamos trabalhando na divulgação do nosso trabalho, enviando material para todos os festivais que achamos interessante participar, e também estamos em fase de nos reunir com o nosso produtor Fernando Quesada para definir os pontos em relação à gravação de novos sons, os quais já estamos trabalhando paralelamente aos demais compromissos.
Iremos tocar no evento “A Voz do Rock Fest” dia 16/07 no Manifesto Bar, vai ser uma segunda parte do festival, que foi criado também pelo Nando Fernandes, onde foram selecionadas as bandas autorais de alguns destaques do festival.

RtM: Para encerrar,  nos fale de suas expectativas para o futuro.
Angel: Embora o Rock não seja tão forte no Brasil, as expectativas são boas, cada vez mais estamos tendo espaço pra divulgar nosso trabalho, e o retorno do público tem sido muito bacana. Torcemos para que um dia possamos viver desse sonho que move as nossas vidas.

Entrevista: Raquel de Avelar 
Colaborou: Carlos Garcia
Edição e Revisão: Carlos Garcia
Fotos: Arquivo pessoal cedido pela banda/Divulgação
Assessoria: TRM Press


Acompanhe a banda nos canais oficiais:





   


   


   

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Entrevista – Sepultura: 33 Anos e Em Grande Fase



Vivendo um grande momento e completando 33 anos de atividade, o Sepultura, enfim, lançou o tão aguardado documentário “Sepultura Endurance”, onde nós, do Road To Metal, tivemos a honra de conferir, em primeira mão, detalhes deste importante registro exclusivamente para os jornalistas no dia 30/05. Anterior a isso, a banda lançou “Machine Messiah”, que ainda vem obtendo criticas positivas.  (English Version)

Depois que foi encerrada a coletiva de imprensa, tivemos a oportunidade de conversar com a banda, onde o guitarrista Andreas Kisser tomou a frente, e, entre outras coisas, nos contou sobre a repercussão do novo trabalho e da alegria ao ver a história do Sepultura ser exibida em salas de cinema.


RtM: O Sepultura vem vivendo uma fase gratificante na carreira, culminada por um disco novo e pelo lançamento do tão esperando documentário, mostrando a banda na estrada nos últimos anos e retratando o que passou durante esses 30 anos. Encarar isso é como estivessem voltando no tempo, só que ainda melhor?
AK: Com certeza! Quando a gente vai relembrar o passado, mexendo nas fotos, montes de arquivos e acaba encontrando coisas que nem lembrava. Isso aconteceu durante o documentário, que celebra os 30 anos da banda,  uma marca importante. Fizemos uma turnê especial, lançamos o single “Under My Skin”, celebrando essa marca, e viajamos o mundo tocando muita coisa antiga. E isso preparou a gente pra fazer o “Machine Messiah”. Enquanto isso, paralelamente, o projeto do filme estava rolando, não tinha planos e nem uma data especifica pra sair. De repente, o Otávio chegou num ponto e falou: ‘Estou com o filme bem direcionado e pronto’. Faltavam algumas coisinhas aqui e ali, tanto é que, no Lollapaloza, e foi colocada a entrevista com o Lars Ulrich. Foi a ultima entrevista e a última coisa que foi adicionada no material.

RtM: A partir daí, vocês entenderam que o material para o filme estava realmente pronto? E o legal é que coincidiu com o lançamento do álbum , completando essas comemorações de 30 anos.
AK: O Otávio sentiu que o filme estava completo, a O2 Play entrou pra fazer os planos de distribuição, fizemos a pré-estreia em Los Angeles e as coisas começaram a acontecer. Então o lance dos 30 anos de carreira, do novo disco e do filme, na verdade, não foi planejada essa correlação. Lógico que o Otávio estava acompanhando todo esse processo: mudanças de bateristas, gravadoras... Enfim, acompanhando tudo isso! 

Então culminou com essa coincidência! O “Machine Messiah” saiu, foi muito bem recebido pela critica em geral e pelos fãs; fizemos duas turnês: uma pela Europa e outra pela América do Norte. Agora vamos voltar pra Europa pra fazer alguns festivais, Rock In Rio e enfim... E o filme saiu num momento oportuno, um pouco depois do lançamento do álbum, porque se saísse junto ia conflitar. E está saindo na hora certa! Dia 14 de junho é o dia Sepultura, onde a galera poderá assistir o filme. Além do filme, conferir as duas músicas mixadas em 4K, do show de 30 anos em São Paulo. 


 "É meio inacreditável colocar isso em salas de cinema, pois eu via filmes do AC/DC e Led Zeppelin nos cinemas."
RtM: Qual o sentimento de viver esse momento e ver esse filme pronto?
AK: É meio inacreditável colocar isso em salas de cinema, pois eu via filmes do AC/DC e Led Zeppelin nos cinemas. E ter essa possibilidade de colocar um filme do Sepultura no cinema, principalmente pra essa geração que nunca viu a banda, é mais uma linguagem que a gente pode chegar a pessoas que nunca iriam nos ouvir, mas que se interessam pelo formato do documentário, pela história e, quem sabe, se interessar pela música e da carreira do Sepultura.

RtM: E “Machine Messiah” vem crescendo, com várias criticas positivas, encarado por muitos como um potencial novo clássico. Você acha também que o sucesso dele se deve a expectativa, e ao que os fãs esperavam de um álbum da banda?
AK: O que o fã espera, com todo respeito, não importa! Se a gente for pensar em todo mundo, não vamos sair do lugar, porque são tantas opiniões e expectativas. E a gente foca entre a gente! O que a gente definir, vamos estar juntos! E é isso que é por bem ou por mal, tanto é que a gente arriscou. A gente sempre arrisca desde o “Chaos A.D”, “Roots”, “Tambours DuBronx”, “Machine Messiah”... Colocamos uns violinos e alguns negócios, mas a gente faz com dedicação e naturalidade, porque ficar fazendo o mesmo é muito chato também. Então a gente tenta trazer todas essas influências que vai assimilando nessas viagens pelo mundo: 76 países, 33 anos, todo ano um lugar diferente... Pode até visitar o mesmo país, mas está tocando numa cidade diferente. E tudo isso traz influência! Então eu não sei... 

RtM: Outra coisa que gostaria de comentar, é que percebi que desde o “Kairos” (2011), vocês vêm colocando mais a energia da banda ao vivo dentro do estúdio, com riffs pesados e adicionando coisas novas e até inusitadas, não deixando a identidade do Sepultura de lado também.
AK: Acho que não é desde o “Kairos”. No “Kairos” conseguimos, com o Roy-Z, transcrever essa coisa do ao vivo pro estúdio, mas a gente sempre teve essa preocupação de ter essa coisa mais orgânica, não depender muito do computador e das edições, mas realmente tocar. E o “Machine Messiah” é isso, ela tem essa coisa da performance mesmo. Acho que nem teve edição da batera, foi uma ou duas coisas que deixou a coisa fluir realmente. Muitas partes sem ‘click’, coisas que são mais da gente mesmo, procurando aquele pulso. E é isso que acontece ao vivo, pois ao vivo é sempre uma surpresa, e isso que é interessante.



RtM: Já de começo, o álbum apresenta novidades, sendo que a faixa-título (abertura do álbum), é marcada por melodias limpas e atmosféricas, algo que não é comum nos discos da banda. E faixa após faixa, percebemos nuances diferentes, indo de elementos de música brasileira e até mesmo orquestrações. A ousadia foi algo determinante pra tornar “Machine Messiah” um disco importante?
AK: Sem dúvida! Abrir o disco com uma música como “Machine Messiah” foi realmente uma coisa nova, apesar que, desde que o Derrick entrou na banda, ele usa melodia na voz. Se você lembrar direito, no disco “Against”, temos a “Common Bonds”, que é uma música que tem bastante melodia. No “Nation” temos a “One Man Army”, “The Ways Of Faith”, “Water”... “Grief”, do “The Mediator Between Head and Hands Must Be The Heart”. Tem um monte de coisa que o Derrick experimentou com a voz dele, mas nunca abrimos um disco com uma música melódica como essa. E a intenção foi fazer uma intro como uma abertura de uma ópera, uma ‘overture’, onde você vai criar uma expectativa do que vem depois disso. 

RtM: Acredito que vocês conseguiram realizar esse intento.
AK: Eu acho que a gente conseguiu criar essa expectativa, porque a galera escuta essa música e fala: “Caralho... O que vem depois?’ E essa era a intenção, realmente, de criar essa expectativa, porque é um álbum que você tem que escutar do começo ao fim. E depois que você escuta o disco inteiro, você volta pra “Machine Messiah” e sente o sentido da música dentro do contexto do disco.

RtM: Além das inovações, é importante destacar a sua versatilidade Derrick, há 20 anos na banda já, e com os  vocais limpos que você adicionou em várias partes do álbum, algo que foi muito observado pelos fãs e críticos, cairam super bem nas músicas que exigem esse lado. 
Derrick: Desde quando eu entrei na banda, os caras sempre queriam fazer coisas diferentes. Quando tem músicas com vibe e agressividade, é legal experimentar com voz suave e diferente. Comigo é sempre importante usar minha voz, dependendo em qual estilo de música. Sempre gostei de experimentar voz mais limpa, mas depende da música e da vibe. E com certeza é sempre interessante.



"Não tem como suprir as expectativas de todo mundo. Eu gosto de falar que o fã de Sepultura espera o inesperado."
RtM: Cada música possui sua personalidade, como “Phantom Self” e “Iceberg Dances”, que nos colocam em experiência novas. Mas “Silent Violence” e “Vandals Nest” são músicas do tipo que os fãs mais esperam, sendo ótimas pra executar ao vivo. Seguir direções diferentes, mas também sem esquecer elementos tradicionais é um dos fatores importantes para que o fã não perca o interesse?
AK: Como eu disse a gente não pensa no que o fã está pensando, com todo respeito. Não é uma coisa de negligenciar, mas é uma coisa que não tem como suprir as expectativas de todo mundo. Eu gosto de falar que o fã de Sepultura espera o inesperado da gente, porque nem mesmo sabemos o que vamos fazer no próximo, por exemplo. Estamos muito focados no que a gente está fazendo agora, vai coletar mais informações e tudo... E a gente sempre tem criticas, nunca é uma unanimidade e nem espero que seja, porque a critica tanto positiva quanto negativa é sempre muito bem vinda. E é isso que faz a gente mudar e crescer.

RtM: A sonoridade é outro fator a ser citado, pois quem cuidou da parte de produção foi o nada menos que o sueco Jens Bogren, que também trabalhou no ultimo disco do Kreator, possuindo um currículo impecável, retribuindo as suas ideias em bandas como Soilwork, Paradise Lost, Opeth, ArchEnemy e, até mesmo, o Angra. O papel dele no disco foi determinante, reforçando ainda mais o que estava preparado por vocês antes de entrar em estúdio?
AK: Perfeito! Sem dúvida nenhuma! A gente preparou uma demo e fomos pra Suécia, Estocolmo, e lá a gente começou a preparar as ideias junto com o Jens antes de gravar cada música de bateria. Foi ele que sugeriu os violinos, da orquestra da Tunísia, que abriu novas possibilidades, principalmente pra solos de guitarra, com aquelas conversas entre os violinos. O Jens é um produtor muito técnico!

Ele mixou e masterizou tudo! Eu acho que a gente teve uma escolha muito feliz de ter ido pra Suécia e ter trabalhado com ele. E abre novas oportunidades do futuro. Quem sabe a gente não continue esse processo... Mas como eu disse, estamos muito focados no que a gente fez e muito satisfeitos com o resultado de tudo. E é um disco que é legal de escutar, porque o Jens realmente conseguiu colocar guitarra, baixo e todos os instrumentos de uma forma fantástica!

O contexto por trás do álbum é sobre a evolução da tecnologia e de quão ela é significativa nos dias de hoje, mas que nos dá um sinal de alerta também, pois ela pode virar uma arma nas mãos de alguns, e de que também não podemos depender de tudo através dela. Trabalhar num contexto, avistado no cotidiano e na vivencia da humanidade, foi fácil?
AK: Foi fácil, porque a gente é humano, falando da humanidade... (risos) A gente teve essa possibilidade e privilegio de viajar ao mundo. Ao mesmo tempo que a gente toca num país como a Armênia ou Cuba, que não tem muita tecnologia, e vai num Estados Unidos, Alemanha ou Japão, você vê a diferença da influência tecnológica. Mas acho que o “Machine Messiah” quer mostrar ou discutir um certo ponto de equilíbrio, não ficar tão máquina e perder essa sensibilidade humana de conversar, trocar uma ideia, usar o cérebro e de desenvolver o intelecto. Não que a gente seja contra os robôs, mas que seja uma coisa de equilíbrio e disciplina.



RtM: Posterior a tudo isso, o inicio da turnê de divulgação do disco, que começou pela Europa ao lado Kreator, que também lançou disco novo no mesmo mês. E a maioria dos shows foram ‘sold-out’, ou seja, os fãs realmente seguem abraçando a banda. A tour seguiu também para os Estados Unidos, onde vocês tocaram ao lado do Testament. Conte pra gente um pouco de como foram esses shows.
AK: As turnês foram fantásticas, tocamos muitas músicas novas! Num set de uma hora, tocamos cinco músicas novas, que é uma coisa que a gente não fazia desde o “Chaos A.D” praticamente. E é muito bom que a galera tem respondido, escutado o disco e conhece as músicas. Foram duas turnês muito importantes pra gente, porque tocamos para um público ‘old-school’, pois muita gente da ‘old-school’, por causa de muitas coisas que houveram, meio que tinha esquecido do Sepultura. Então foi interessante tocar pra essa galera, tanto com o Kreator, na Europa, e com o Testament nos Estados Unidos. E foi tudo muito positivo! Voltamos muito motivados e prontos pra seguir! A gente volta pra Europa no verão Europeu.

Entrevista: Gabriel Arruda
Edição/Revisão: Carlos Garcia


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